A cronologia de San Michele al Tagliamento
O início
Estamos na “Proto-História” nas eras do Bronze e do Ferro, compreendidas entre a segunda metade do III, durante todo o decorrer do II, e I milênios antes de Cristo, período para o qual existem fontes literárias que revelam tanto das particularidades daquele “etno-histórico” como o “histórico”.
Naquela época, a densa planície da região envolvendo San Michele al Tagliamento, era um emaranhado de vegetações silvestres e córregos ribeirinhos que, devido ao escasso relevo, toda humidade se estagnava criando grandes áreas pantanosas que lentamente movimentavam-se para sua foz no Mar Adriático. Essas lagunas nas costas dos cordões litorâneos arenosos, estruturadas principalmente pelas cheias do rio Tagliamento, dividia a geo formação no encontro com a faixa litorânea.
De 1500 a.C. até a invasão dos Bárbaros
Conhecida como idade do ferro, nessa época já era possível registrar os primeiros pioneiros do local, revelados como “antigos Venetos”, que se concentravam principalmente na planície Padana, situada ao nível dos 100 metros, entre Alpes ao norte, e os Apeninos (cordilheira dorsal da península italiana que se extende verso ao sul do continente).
Grande parte daquela população na época, preferiu ocupar e se estabelecer nas regiões um pouco mais próximas ao nível do mar, com clima temperado, evitando assim, as montanhas geladas.
Por volta dos anos 400 antes de Cristo, tal situação facilitou a entrada e aglomeração nessas zonas montanhosas alpinas, dos povos “Carni”, tribo Celta que tinha facilidade de se estabelecerem principalmente em áreas de climas mais frios, como os planaltos europeus e lugares próximos ao Polo Norte.
Com o passar do tempo a miscigenação entre os “Carni” e os “Venetos” deu início a “Cultura dos Castellieri” que por ocorrerem em zonas montanhosas particularmente tomada por cascalhos, acabam sendo batizados pelo mesmo nome local. Essa fusão também influenciou substancialmente no que conhecemos hoje como dialeto friulano.
Com a chegada do Império Romano por volta do Século II antes de Cristo e a fundação de Aquileia (hoje perímetro que vai do município de Latisana, passa por San Giorgio al Tagliamento até Bibione), iniciou-se então um processo de domínio e expurgo dos Celtas. Isso se concluiu no dia 8 de dezembro do ano 115 antes de Cristo, quando o pretoriano Marco Emilio Scauro, triunfou sobre os “Carni”, permitindo então que as regiões mais altas da península italiana, fossem ocupadas pelos venetos e romanos.
Obviamente, essa façanha de Scauro não teria sido possível, não fosse a colaboração dos próprios Venetos. Os Carni por sua vez não abandonaram totalmente a região, mesmo porque, como já antecipado, existiu uma forte miscigenação entre os dois povos, que passaram sim a ocupar territórios menos interessantes para os atuais romanos, que permaneceram dominadores por pelo menos setecentos anos até o Século V depois de Cristo, com a invasão dos Bárbaros.
Nessa época a via Annia, construída pelo pretoriano Tito Annio Rufo, no ano 131 antes de Cristo, coligava Roma ao local que possuía a estação Apicilia (São Giorgio al Tagliamento). Muitos fragmentos arqueológicos descobertos dessa época são possíveis da apreciação e visitação nos dias de hoje, como por exemplo uma villa romana escavada em Bibione (maiores detalhes nesse artigo).
De 568 até 1797
Entre os anos de 568 até 774 depois de Cristo, os Longobardos, ou barbas longas (grupo de bárbaros formados por várias etnias, sobretudo as germânicas), encontraram meios de reestabelecer ordem e tranquilidade ao local. Germânicos (alemães) imigrantes trazidos pelo extenso rio Elba, se concentraram dentro da península principalmente na região que não por acaso leva o respectivo nome de “Lombardia”, entre os Séculos II e VI depois de Cristo, na maioria dos casos, motivados pelas famosas caravanas cristãs, que tinham como destino a Terra Santa.
Foi também no ápice desse período, por volta do ano 1.100, que começaram a surgir variadas ordens de cavalheiros, com o intuito de escoltar e proteger as respectivas viagens, muitas das vezes em grande número de adeptos, rumo a Jerusalem.
No percurso dessas empreitadas, muitas casas e igrejas, destinadas a acolher esses peregrinos, foram edificadas, formando novas urbes. A maioria delas eram batizadas pelos anjos guerreiros São Miguel (San Michele) e São Jorge (San Giorgio), enquanto um novo Ducado friulano recentemente era constituído no local.
Tal empreendimento ficou a cargo dos Franchi, povos germânicos ocidentais, que mudaram o Sacro Império Romano, tomando posse na forma de feudos, os vários territórios (entre os quais aqueles do Friuli) designados de sua confiança. Nos primeiros séculos do segundo milênio, resulta que o território de Latisana, fundado previamente pelo pretoriano Tisius, fosse destinado à uma família alemã para mais tarde passar aos Condes de Gorizia, enquanto o lado direito do rio Tagliamento, concedido ao Patriarca de Aquileia e depois ao Bispo de Concórdia.
Toda a região era definida como Pátria do Friuli; fração destinada à um eclesiástico que por sua vez fez nascer em todo o território administrado, diversas ordens, conventos e monastérios cristãos. Tudo leva a crer que nessa época (também), a língua e cultura friulana (com ajuda dos celtas, longobardos, e outros), tomaram forma e volume, reforçando a identidade do povo da região.
Em 1420, pela necessidade de defender seus limítrofes, solicitadas principalmente pela segurança da importante atividade mercantil que movimentava financeiramente de maneira substancial o local, a fortíssima Republica de Venezia, que já existia desde o ano 697 depois de Cristo, a postos do comando e domínio de toda região do Veneto, se empossou militarmente de grande parte da Pátria dos Friulanos, com o objetivo de manter a ordem e promover tranquilidade nas transações comerciais.
Para a genealogia Zamarian, a chegada ao distrito de Malafesta, da qual é parte integrante atualmente do município de San Michele al Tagliamento, aproximadamente dez quilômetros do centro administrativo, é marcada pela descoberta do documento mais antigo até o momento de nosso acervo.
De fato o registro de Batismo de Domenica Zamarian, filha de Giovanni Maria e Giulia Cecutto, emitido pela paróquia de San Tommaso Apostolo (cerca de 900 metros de Malafesta), cujo nascimento o documento revela ser do dia primeiro de outubro de 1725, revela cronologicamente o período que a família chegou ao local.
Ao que tudo indica, trabalhavam para a nobre família veneziana, de origem lombarda, os Mocenigo, proprietários de uma vasta área de aproximadamente 700 mil metros quadrados, que englobava San Michele, Portogruaro e inclusive Fratta, fração de onde teria vindo a família Zamarian, antes de aportarem e se estabelecerem até mesmo nos dias de hoje, em Malafesta.
Aos 2 de Outubro de 1725
Domenica filha legítima. Nascida de Gio Maria filho de Iseppo Zamarian e de Giulia filha de Osvaldo Sicutto de Fratta cônjuges. Foi Batizada por mim Pároco Francesco Covassini Curador. Padrinhos Domenico filho do finado Angelo Macor e Domenica filha do finado Girolamo Peloso. Nascida ontem.
Em um perímetro de quase quatrocentos anos, a região viveu uma época serena de prosperidade, por tudo aquilo que representava o vasto império comercial de Venezia na época, nos diferentes confins ao redor do Mar Mediterrâneo.
A própria biografia da família Mocenigo, que representava o alto escalão do poder veneto, diretamente implicada nessa correlação, que muito colaborou nos mais variados campos da sociedade local, como; arquitetura, educação, agricultura, infraestrutura, artes sacras, etc..., revelam bem o quão a região cresceu e produziu bons frutos nessa época.
Face isto é possível quase afirmar categoricamente, que a família Zamarian, ao que tudo indica de procedência caucasiana, pela ascendência da origem do sobrenome ligada à Armênia, pode ter sido influenciada neste sentido também, justamente pela fartura que representava Venezia neste período, através das próprias conexões marítimas que possuía com o extremo oriente.
No entanto, todo esse período glamuroso e sereno proporcionado por Venezia se interrompeu com as guerras promovidas pelo francês Napoleão Bonaparte, que a partir do final do Século XVIII modificou duramente toda a precedente situação social, afetando também a política local a partir do tratado assinado em 1797.
A Batalha de Campoformido, conforme pode ser melhor entendida neste artigo, com a consequente queda da república veneziana, determinaram uma longevidade de tempos terríveis e instáveis que se propagariam em toda região.
Tanto é que estudiosos e historiadores não apenas da região de San Michele al Tagliamento em específico, mas de todo o Veneto e Friuli Venezia Giulia, constataram um ciclo de miséria e instabilidade que se instaurou por mais de um século, sendo catastroficamente batizado como os “Anos Fatais”, com altos índices de mortalidade infantil, revoltas, insurgências, conflitos bélicos frequentes, fomentando inclusive a grande movimentação imigratória para América do Sul como veremos a seguir.
1800 - 1900, os Anos Fatais
O Mal que permeia o Ar.
A parte, não se aprofundando dentro de tantos outros problemas de caráter sanitário, é preciso salientar que devido às características geográficas do local, surtos de malária eram frequentes, já que a constante humidade presente e o excesso de valas paradas, proporcionavam a frequente proliferação de mosquitos.
Pensar que as primeiras medidas de fato para resolver essa questão foram tomadas apenas a partir de 1920, faz pensarmos o quanto sofreu a população em todos os séculos sem solução.
Um calafrio pelo corpo;
uma penumbra nos olhos;
uma fraqueza que lhe tira as pernas;
chegou; é ela mesmo: a malária!
Descansando na sombra de um aterro,
com um sol que faz estalar espigas,
estou aqui esperando que me passe,
porque não quero perder a jornada,
uma jornada de salário!
Mas a febre sobe:
é preciso voltar pra casa
no coração do meio dia
com um sol que te atordoa.
Os companheiros me observam
chateados por ir embora.
Senhor, é mesmo suado
o nosso pão!
Walter Rogato
Com a invasão das tropas napoleônicas, a República de Venezia deixa de existir e os territórios dominados, assim como San Michele, são negociados como moeda de troca pela Bélgica com o Império Austríaco, no tratado de Campoformido.
Antes porém, no curto período em que Napoleão domina a região, se estabelece através do decreto número 35 e 38 do dia 22 de dezembro de 1807 o nascimento oficial do município de San Michele, o qual é desmembrado do Friuli e agregado ao então criado Departamento do Adriático, cuja capital é Venezia.
BOLETIM DAS LEIS DO REINO DA ITÁLIA
(N. 283) Decreto sobre a divisão dos novos departamentos ex venetos
22 de dezembro de 1807
NAPOLEÃO,
Pela graça de Deus e pela Constituição,
IMPERADOR DOS FRANCESES, REI DA ITÁLIA
E PROTETOR DA CONFEDERAÇÃO DO REINO,
foi decretado e decretamos quanto segue:
TÍTULO PRIMEIRO
Departamentos dos municípios venetos de nova agregação.
Art. 1. Os municípios venetos de nova agregação foram divididos em sete departamentos, isto é:
Do Adiatico,
Do Bacchiglione,
Da Brenta,
Da Istria,
De Passariano,
Da Piave e
Do Tagliamento.
Boletim de 1807 Página III 9º
2. Os pré anunciados departamentos foram divididos em distritos e cantões, como da anexa tabela.
3. Se a experiência fará conhecer necessária alguma retificação nos circundarios destes distritos, cantões e municípios, o conselho de estado, sobre os recursos que foram apresentados ao governo, está encarregado de propor no espaço de dois anos para Nossa aprovação.
TÍTULO II
Conselhos gerais departamentais, distritais e municipais.
4. A nomeação dos conselheiros gerais dos departamentos, dos distritos e dos municípios sedes dos departamentos foi nesse primeiro momento criada imediatamente por Nós, sobre lista que nos será apresentada pelo ministro do Interior.
5. A nomeação dos conselheiros dos outros municípios serão realizadas dentro de dois meses pelo conselho geral do respectivo departamento.
6. O ministro do interior está encarregado da execução do presente decreto, que será publicado e inserido no boletim das leis.
NAPOLEÃO.
Pelo Imperador e Rei,
O Ministro Secretário de Estado
Antonio Aldini
Um pouco depois no dia 26 de março de 1813, através do decreto número 56, do Vice Rei da Itália Eugenio Napoleone, são nomeados os membros do primeiro Conselho Municipal nas pessoas de; Giacomo Caneva, Giuseppe Zavan, Osvaldo Gallici, Giovanni Iseppi, Giovanni Bottari e Michele Conte.
Depois da queda de Napoleão Bonaparte e o consequente Congresso de Vienna, através do decreto do dia 30 de novembro de 1815, San Michele é anexado definitivamente ao Império Austro-Húngaro, sob a forma de fração do Reino Lombardo Veneto, dentro do perímetro administrativo da Província de Venezia.
Com uma série de insatisfações da população em geral sob o domínio austríaco já aqui antecipadas, que envolviam diretamente questões sanitárias, de infra-estrutura e até mesmo econômicas, não demoraria muito para eclodir constantes revoltas com movimentos separatistas anti-Austria neste sentido.
A exemplo dessa situação podemos expor aqui os seguidos matrimônios de Osvaldo Zamarian, ao número de três dos quais o primeiro com a perda da esposa Lucia Garzon e a filha Valentina Zamarian; o segundo, óbito da esposa Maria Biason, e todos eles muito provavelmente por problemas sanitários, tendo apenas sucesso no terceiro com Elena Osvaldini, cujos frutos, um deles, Valentino, se tornaria pai do neto que levou o mesmo nome, nascido em 1869, sempre em Malafesta, que então seria o patriarca de uma das duas ramificações mais expressivas desenvolvidas no Brasil.
Matrimônios da forma apresentada, eram seguidos, conforme constatado e apurado em nossa base de dados, dando-nos uma idéia de quão instável e inseguro era viver no local nessa época.
Isto se verificou também nos registros civis dos quais montamos boa parte da nossa estrutura genealógica revelando índices absurdos de mortalidade infantil, onde quase toda a família era dizimada por questões sanitárias de cunho ordinário já muito debatidas e bem resolvidas em diversas partes do mundo, que com um pouco mais de vontade por parte da administração estrangeira atual, teria sido possível amenizar uma série de dores e pesadelos para a população veneto-friulana.
Em 20 de junho de 1866, o exército do Reino da Itália vence o Império Austríaco naquela que ficou conhecida como terceira guerra da independência. A reintegração do Veneto e Friuli Venezia Giulia à península, no dia 7 de novembro do mesmo ano, proporcionava esperanças de ares melhores no futuro e o tão sonhado retorno da estabilidade.
No ano seguinte, na data de 7 de maio de 1867, depois da deliberação do Conselho municipal, San Michele passa a se chamar San Michele al Tagliamento com régio decreto número 3.827 do dia 21 de julho do mesmo ano.
Entretanto, o custo desse conflito quantificou uma série de problemas que já não eram poucos na região. Destruição de infraestruturas, acessos, óbitos de componentes familiares importantes, êxodo da população e todos os percalços que uma guerra prontamente costuma proporcionar àqueles que realmente sofrem nestas situações: a população civil. É possível ter um pouco mais de detalhes a respeito disso neste artigo.
Toda a devastação provocada pela guerra fizeram com que por exemplo Pietro Zamarian conhecesse o Brasil em 1887, através de navios abarrotados de imigrantes, mão de obra barata que substituiria o sistema escravagista que alimentavam as grandes lavouras do país. O Contato com o novo continente, foi determinante para que decidisse pouco tempo depois, trazer definitivamente a esposa Antonia Marcos e todo o resto da família no ano de 1892.
O mesmo ocorreu com os filhos de Pacifico Zamarian, Marco e Francesco, que se estabeleceram em Mendoza, Argentina praticamente na mesma época. Situação semelhante para Luigi Zamarian que se fixou com toda a família em Salta, também na área norte da Argentina.
Francesco Faggiani, bisneto de Giovanna Zamarian, que partiu para Argentina e anos mais tarde pediu a esposa Anna Faggini, juntamente com os outros três filhos, que deixassem a Itália e se juntassem a ele definitivamente pra viverem na periferia de Buenos Aires.
Sabata Zamarian que com o marido Giacomo Scussolin e os filhos emigraram também de maneira definitiva para o Espirito Santo, no Brasil. E tantos outros casos, que com muita dor no coração tiveram que abandonar para sempre a terra natal e se aventurarem em uma nova cultura, idioma e lugar.
1900 - até os dias atuais
Se podemos dizer que a vida voltou ao normal depois de cem anos de pesadelo em San Michele, estaremos mentindo da maneira mais cruel.
Logo no florescer da década inicial, vieram os rumores da primeira guerra mundial, sempre envolvendo a briguenta Austria que não se conformava em perder o Veneto. Com a ajuda de outros dois também historicamente causadores de confusões Alemanha e Império Turco, um novo capítulo vergonhoso para história humana, tumultuaria mais uma vez a vida na região.
Um pouco antes disso, Antonia Biason suplica ao marido Osvaldo Zamarian o conhecido refúgio brasileiro para salvar o único fruto do primeiro matrimônio, Giovanni Bacinello (em idade e eminente convocação para alistamento militar), o que acaba custando a vida do outro filho caçula do novo casamento com pouco mais de um ano de vida, Cirillo Zamarian, que tragicamente perdeu a vida a bordo do navio, muito provavalmente por febre amarela e foi lançado ao mar durante a viagem para o Brasil iniciada no dia 10 de dezembro de 1913. História essa, que pode ser acompanhada com maiores detalhes neste artigo.
Quando a família de Osvaldo e Antonia embarcam em Trieste, deixando a costa italiana adriática, a bordos do navio Alice, foi possível contemplar pela última vez o recém inaugurado farol de Bibione, também afetado pelos estragos da anunciada primeira guerra mundial, quatro anos depois. Sua reestruturação só viria ocorrer apenas no ano de 1952.
Com os conflitos da primeira guerra já estourando no local, tivemos o triste epílogo envolvendo a filha de Giuseppina Zamarian, (neta de Pietro e Antonia Marcos), que juntamente com o marido Antonio Martin e alguns filhos nascidos no Brasil, tiveram que retornar as pressas para Itália no início do século, afim de cuidar da propriedade dos sogros em Summaga, Portogruaro.
A jovem de dezoito anos Santa Martin, acaba covardemente perdendo a vida para um estúpido soldado alemão, assassinada a queima roupa, onde a pobre moça tentava desesperadamente ir até a própria casa, afim de buscar uma manta para o irmão de colo, que passava frio, enquanto toda a família se abrigava escondida no mato, com medo da ofensiva alemã, que por onde passavam saqueavam as casas dos civis e despontavam todo tipo de selvageria nesses avanços. Esta história é possível ser acompanhada abaixo na recapitulação do primo Olivier Negri Filho, que conta detalhadamente como foi.
Após o enésimo episódio de um final trágico e devastante daquilo que a guerra produziu para o local, um imponente programa de reestruturação foi realizado no território tentando reestabelecer o desenvolvimento econômico, com distribuição de terras subsidiadas pelo governo, aumentando a produtividade depois da introdução de novas técnicas de cultivo, já que obviamente, San Michele sempre foi uma área dedicada à agricultura.
As medidas tomadas promoveram em curto espaço de período um aumento expressivo da população, incentivando outras famílias de agricultores de fora, optarem pelo local.
Nem mesmo é possível comemorar um curto espaço de prosperidade e eclode a segunda guerra mundial. San Michele al Tagliamento, por usa vez, na triste sina de estar estrategicamente no caminho das ofensivas, é violentamente bombardeada.
Ferrovias e principais estradas são os alvos mais procurados afim de interromper os fornecimentos da tropa inimiga, mais uma vez representada pela Alemanha, que teve carta branca para ocupar os territórios italianos, através do acordo com Benito Mussolini.
Infelizmente o bombardeio não foi pontual como constantemente ouvimos dos próprios causadores dos estragados destas magnitudes, tentando cinicamente amenizar a situação.
A série de bombas despejadas em San Michele, como mostra o vídeo abaixo no dia 5 de julho de 1944, provocaram uma onda assombrosa de estragos e principalmente expressivas baixas na população civil de San Michele e Latisana.
Os moradores tiveram que se refugiar nos arredores da região, vivendo em casas improvisadas, celeiros, estábulos, barracos e casebres dilapidados, sofrendo todo tipo de escassez e suporte sanitário higiênico imaginável, além de obviamente, a inexistência do amparo por parte da defesa civil, já que a cidade estava devastada administrativamente também.
É bem possível imaginar, que se nossos ancestrais tivessem optado por permanecerem na Itália, talvez nem mesmo descendentes teriam deixado, como foi o caso de tantas famílias dilapidadas neste amargurante enésimo episódio de destruição e desolamento. Por incrível que pareça, muitos deles escaparam porque estavam no campo trabalhando nas lavouras.
Não temos ainda o balanço final destas baixas, principalmente as que interessam diretamente nossa genealogia, mas pelo formato de como se deliberou o conflito sobre a cidade, e o que restou dela, é possível determinar que houveram perdas significativas neste sentido, principalmente por parte daqueles que não tinham opções válidas de refúgio, pouco podendo fazer para locomoverem-se as pressas, de maneira, em muitos dos casos, totalmente improvisadas.
Embora este tenha sido o último embate da população civil sanmichelense no que diz respeito a tragédias proporcionadas por guerras, não podemos deixar de evidenciar que desde a invasão napoleônica em 1795 até 1945 foram cento e cinquenta anos sem uma tregua absoluta e serena no local.
Aos resultados catastróficos acumulados pelos conflitos bélicos, somados àqueles problemas sanitários, mais os de característica natural, como as próprias cheias do rio Tagliamento, computaram-se números traumáticos condenando a involução da urbe.
Na incansável reconstrução do município se fazia necessário, diante de todos os prejuízos auferidos, um planejamento ainda mais audacioso. Esta nova era então seria marcada por uma transformação significativa no município, abandonando o fator de ser estritamente voltada para atividade agrícola e passando a investir de maneira mais convicta no setor industrial.
Porém, são as máquinas que tomam os espaços e funções cada vez com maior frequência dentro destes setores, inclusive no campo, fazendo com que boa parte da mão de obra no município fique sem ocupação. A isto implica-se também o fato de não estar preparada e deste modo desqualificada para a nova demanda criada.
Este fator implicou em respectivas novas levas massivas de imigração para variados cantos do mundo, como as já muito procuradas Américas, desde o final do século passado, Australia e a própria Europa.
Outros preferiram se transferir para zonas industriais italianas em constante crescimento, como as cidades de Turim e Milão. É o caso da irmã de Osvaldo Zamarian (imigrante que rumou definitivamente para o Brasil citado acima), Elena, que com o marido Giuseppe Infanti e a filha Lucia se transferiram para Milão.
No dia 4 de fevereiro de 1955, o município oficializa seu brasão aprovado documentalmente meses depois, através do registro número 4, folha 205, transcrito no Registro Araldico do Arquivo Geral do Estado, no dia 30 de julho do mesmo ano.
O escudo todo em prata, possui uma coroa simbolizando a fortaleza da urbe. A faixa central em azul, simboliza o rio Tagliamento e as três estrelas que o permeiam, representam suas maiores frações; Bibione (atualmente 2,4 mil habitantes), San Giorgio al Tagliamento (1,7 mil) e Cesarolo (1,4 mil). É adornado ainda por ramos que expressam a riqueza de sua flora, fauna e agricultura, selados pelo símbolo tricolor italiano.
Além das três frações já apresentadas, o município, dentro dos seus 115 quilômetros quadrados de área, apresenta outros treze distritos de aspecto mais agrários: Marinella (300 habitantes), Malafesta (280), Bevazzana (270), Villanova (130), Biasini (70), Terzo Bacino (50), Caverzani (45), Palazzetto (42), Malamocco (40), Boscatto (37), Cedole (35), Colombara (32) e Eridania (11 habitantes).
A partir dos anos cinquenta, novos desafios foram impostos ao município. Depois de tantas perdas, uma nova reestruturação e modernização se fazia necessária para reconstrução de sua vida social e econômica.
Tais propostas levaram as respectivas administrações públicas seguintes, explorarem aquilo que melhor representava a beleza cultural, histórica e natural de San Michele. Deste modo, programas de revitalização de suas áreas e infra-estrutura, foram criadas para explorar principalmente o turismo.
Bibione acabou se tornando um dos principais balneários da Itália, com mais se seis milhões de visitas anuais, o que fortaleceu substancialmente o desenvolvimento de outros setores na região.
Apesar de grande e relativamente inserida dentro de um contexto histórico de peso importante, como vimos durante esta rápida retrospectiva de sua cronologia, San Michele al Tagliamento não figura nem entre as top 10 da Província de Venezia, algo que por sua história e importância estratégica, por tudo que viveu e ofereceu, lhe seria de pleno direito.
A estagnação no modo de subsistência rural por séculos a fio e principalmente a série de problemas diretamente relacionados as tantas guerras que San Michele sofreu, contribuíram substancialmente para que o município pouco evoluísse neste sentido. Entretanto, desde o ápice dos “Anos Fatais” por volta de 1860, até os dias atuais, a população se elevou de menos de cinco para mais de doze mil habitantes.